Subscrever: Posts | Comentários | Email
Busca no site
Vivemos com medo

Este sentimento ou emoção nos acompanha desde antes do nosso nascimento (dizem) e desde tempos imemoriais.
Há três mil anos, os gregos já se davam conta disso, através do culto aos deuses Fobos (o Pavor) e Deimos (o Temor). Pã, outra divindade, também tinha o seu lugar. Era um deus pastoril que costumava assustar pastores e seus rebanhos, espalhando o pânico entre eles. Tornou-se para os gregos, a personificação da natureza devido ao temor que infundia aos homens.
O medo é parte fundamental no nosso instinto de sobrevivência e, sendo assim, de certa maneira, suas reações fisiológicas são incontroláveis. Se estivermos em uma situação de risco, de perigo real, nosso cérebro vai descarregar uma série de substâncias, os neurotransmissores, que vão preparar o nosso corpo para o perigo e para dois tipos de respostas, de ataque ou fuga.
Uma prova de que o medo acompanha a nossa evolução, desde os primórdios, foi a descoberta da função de estruturas muito primitivas presentes em nosso cérebro, envolvidas em situações relacionadas ao perigo. A nossa diferença em relação aos outros animais e que somos capazes de antecipá-lo, como também de ampliá-lo. Só o bicho homem se assusta ao ouvir histórias de ataques, fugas, desastres, tragédias etc… Esse talento nos tornou o mais medroso integrante do reino animal. Reagimos às ameaças de formas mais sutis e inusitadas, as presentes ou as imaginadas.

Essas ameaças edificaram nossos pesadelos coletivos. Alguns de nossos temores mais íntimos são compartilhados por toda a humanidade. São transmitidos, quem sabe, geneticamente, desde o tempo que servíamos de comida para alguns predadores mais bem equipados e preparados para a caça. De nossos ancestrais herdamos o medo de altura, de escuridão, de reclusão, de insetos e outros animais. Heranças do tempo das cavernas povoadas de insetos e animais peçonhentos e precipícios que poderiam significar o fim de nossa linha, quando éramos perseguidos por algum tipo predador.
Um dia, o ser humano se rebelou, tomou consciência de sua mortalidade e passou a lutar contra ela, cercando-se cada vez mais de mecanismos de segurança. Rompeu assim com a lógica da cadeia alimentar e o que se seguiu foi um longo aprendizado sobre sobrevivência e tentativas de se adiar a morte. Desses medos naturais ou até mesmos considerados inatos, nasceram algumas fobias, como a de insetos e a claustrofobia, por exemplo.
Há milhares de anos, mulheres e crianças, ficavam vulneráveis aos ataques de insetos e animais rastejantes, nas cavernas, podendo vir daí, o medo ou pavor de baratas e cobras. O horror de ficar acuado ou preso em lugares fechados como buracos, tocas, cavernas, sem saída, pode ter sido amenizado ao longo do tempo para a maioria das pessoas, mas permaneceu presente em muita gente. É onde entra o fator social e cultural. Herdamos esses medos provavelmente geneticamente, mas não o seu excesso. Os culturais mais os inatos norteiam nossas vidas, desde que nascemos ou até antes disso, pelas reações de medo oriundas do corpo da mãe.
Continuamos ao longo da evolução com os mais primitivos, mas adquirimos muitos outros, mais sofisticados. Isso por via de diferentes tipos de condicionamentos. Novos medos vêm de todas as direções e parte deles se fixa na infância. Muitos são compartilhados por todas as sociedades do planeta, em determinado momento histórico, como fantasmas, bruxas, violência, solidão etc… Sendo que o maior deles é o medo do desconhecido. Por isso, tememos tanto a morte, por desconhecê-la, por seu caráter imprevisível. A cada esquina ela pode nos espreitar, nos atacar, nos surpreender.
Entretanto, segundo alguns especialistas em pânico, o medo é uma emoção primitiva, que nos protege das enrascadas da vida nos apronta. Essa ferramenta garantiu a preservação da nossa espécie ao longo de nossa história evolutiva. Embora não seja exclusividade humana, em nós, ele se manifesta com mais freqüência e em diferentes situações, que nada têm a ver com ameaça ou perigo real. Isto porque, em nós, o medo não é inato. Ele se constitui individualmente, nas relações culturais e interpessoais dos seres humanos. A prova disso, é que os bebês não sabem lidar com o perigo. Somente aos poucos é que eles constroem seu repertório de medos e de situações de alerta. O risco real não é diferente do imaginário. Um exemplo disso são os filmes de terror, suspense e ação, mesmos irreais provocam medos. O próprio medo da morte é construído.
De qualquer forma, o medo primitivo da caçada de nossos ancestrais, pode estar guardado em nosso inconsciente (coletivo?). É uma emoção natural, que está na nossa constituição (inato ou adquirido?), por isso talvez queiramos sempre revivê-la, através de filmes de terror, ação e aventura. Quem sabe brincar com ela? Aprender a dominá-la? A superá-la?
O medo está presente em nosso dia a dia estressante cada vez com mais intensidade. Entretanto, no passado outros fatores causavam tanto stress como hoje: as doenças, a baixa expectativa de vida, a fome e a miséria da maioria, a ganância dos poderosos, as guerras, os preconceitos, a excessiva moralidade, a falta de liberdade e de garantias individuais e constitucionais etc…
Talvez o homem ainda não saiba o que é viver sem medo. Isso pode ser até algo muito chato e entediante. Portanto, mesmo quando conseguimos nos proteger contra os vários medos reais, ainda assim, damos um jeito de criar outros, irreais, imaginários ou patológicos, para vir nos assombrar.
Tenha medo, Revista Terra, 4º fascículo, jul 2003.
O barato de sentir medo, Revista Galileu, nº. 147, out 2003.
Saiba mais:
Bioquímica do Medo:
Liberação de hormônios, promovendo reações físicas e ativação de certas regiões cerebrais;
Produção de quatro substâncias: adrenalina, endorfina, dopamina, cortisol;
Preparação para reação à ameaça pela luta ou fuga.
Reações físicas:
Respiração acelera;
Batimentos cardíacos disparam;
Pêlos eriçam;
Salivação diminui e a boca seca;
Estômago se contrai;
Reserva de gordura é queimada;
Circulação sangüínea se concentra nos músculos.
Observações:
O gosto por situações de medo e pânico, como nos filmes e esportes radicais, pode estar associado a:
Um conjunto de estruturas famosas pela relação com o uso de drogas – o sistema de recompensa;
A liberação de hormônios que provoca reações físicas e estimula e ativa essas regiões cerebrais;
O stress causado faz o corpo se sentir bem;
A preparação para a luta ou fuga, atenua o desconforto físico e podem trazer satisfação, após o obstáculo vencido;
A sensação de bem-estar está associada aos opióides, que o cérebro produz durante o stress;
Essas substâncias analgésicas podem trazer uma certa calma depois da euforia, como acontece com relação a certas as drogas, portanto, essa sensação pode ser assumir um caráter viciante.



















