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Comportamento Animal Intuição, dom ou função?

Paranóia

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Mesmo acreditando que a psicanálise era impotente para lidar com a paranóia, Freud a estudou bastante, em especial, através do caso célebre do Dr. Schreber. Este “doente dos nervos” escreveu um livro sobre a sua doença e foi analisando esses escritos que Freud, junto com alguns de seus colaboradores, como Jung e Ferenczi, traçou algumas teorias sobre a paranóia e suas diferentes maneiras de se apresentar.

Paranóia é uma palavra de origem grega que significa loucura e desregramento do espírito. É uma psicose bastante peculiar. Afora a presença do delírio, o restante da personalidade parece atuar de forma normal.

Nela se instala um sistema delirante, muitas vezes, complexo, constante e quase inabalável, que deixa as faculdades intelectuais intactas e que corresponde aos conceitos de monomania e de delírio crônico sistematizado, distinto da esquizofrenia.

É para Freud uma psicose de defesa, cujo principal mecanismo envolvido é a projeção. Seus sintomas emergem de um mecanismo psíquico inconsciente, que é uma tentativa de recalcar uma representação incompatível com o consciente, que se impõe ao ego aflitivamente. As causas de certas sensações e pensamentos são buscadas fora, ao invés de dentro do próprio sujeito.

O delírio pode ser visto como o sintoma por excelência da paranóia. Freud, ao contrário das concepções de sua época, via nele uma tentativa de cura e de reconstrução da realidade. O delírio paranóico era, pois, uma tentativa de assegurar a coesão do eu, graças ao mecanismo de projeção. Assim, a libido, energia sexual vital, era restituída aos objetos externos, permitindo que aquilo que foi abolido dentro pudesse retornar ao sujeito como vindo de fora, dos outros.

A projeção é, para Freud, o segundo tempo de uma transformação gramatical de uma proposição inicial. O delírio tem uma relação paradigmática com a paranóia, que corresponde às quatro principais formas da doença e as diferentes possibilidades de declinar uma contradição.

A primeira dela estaria presente nos delírios de perseguição, que asseguram ódio e não o amor à outra pessoa. Portanto, “eu não o (a) amo, ele (ela) é que me odeia”. Ele (ela) é que me persegue. Uso do mecanismo de defesa da projeção.

Outro tipo contradição são os casos de erotomania, a segunda forma de paranóia, explicadas por fixações exageradas ou deformadas, que começam não pela percepção interna de amar, mas pela externa de ser amado (a). Por projeção, “ele (ela) me ama“.

A terceira modalidade pela qual a proposição inicial pode ser contraditada é no delírio de ciúmes, a fantasia rechaçada pode ser como nos delírios alcoólicos de ciúmes, a de não ele, mas ela buscar a companhia de outro homem ou outros homens ou vice-versa.

No delírio de ciúmes, não é a pessoa que quer trair, mas o outro. Portanto, não sou eu que amo, mas ela (ele). A suspeita recai sobre o outro e em relação a outras pessoas que o próprio sujeito podia se interessar ou amar. O ciumento está sempre atento a indícios de traição, que só ele vê ou vê primeiro. Talvez pelo desejo de que aquilo acontecesse com ele. Como se ele quisesse ser amado (a) ou olhado (a) como o ele (ela) pensa que o outro o é.

Na realidade, porém, ainda existe uma quarta contradição, que rejeita todas as outras. Aparece na proposição de que o indivíduo não ama ninguém, só a si próprio. Ou seja, “eu me amo”. Essa contradição é a megalomania, onde o objeto amoroso é o próprio sujeito, encarada como uma supervalorização sexual do seu próprio ego.

Entretanto, pode-se detectar um elemento de megalomania, na maioria dos outros distúrbios considerados paranóides.

De um modo geral, os delírios de ciúme contradizem o sujeito, os de perseguição, o predicado e a erotomania, o objeto. E a megalomania aparece como a representação da negação de todas as modalidades, formas ou contradições da paranóia.

O que distingue as considerações teóricas sobre a paranóia vistas por Freud e alguns dos seus principais colaboradores na ocasião, é a fundamentação dessa afecção num conflito psíquico de ordem homossexual, ou seja, a idéia a ser rechaçada da consciência ou reprimida, seria a fantasia de um indivíduo amar outro do mesmo sexo.

A homossexualidade que não seguiu seu curso, que sofreu uma repressão e retornou ao sujeito em forma de delírios. Isto foi bastante contestado naquele momento e também atualmente, mas pode ser observado em muitos casos, em especial, nos delírios de perseguição e ciúmes.

O filme “Bem me quer, mal me quer”, título em português, passado do Cine Debate do Espaço de Psicologia, retratou um caso de erotomania. A personagem construiu em sua fantasia, a idéia de ser amada por alguém e tentou transformar isso em realidade a qualquer preço.

Extraído da monografia de pós-graduação “O ciúme na obra de Freud”, por Ana Márcia Mello Pereira.

Freud, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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